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sexta-feira, 18 de junho de 2010

as minhas tarefas solitárias

eu sou solitária. e não da espécie parasita. de uma linhagem outra, da ordem dos acordados, filo sóficos de araque. já entendi tanta coisa, mas nunca entendi bem minha inteligência. sei que sou egocêntrica e tem gente burra que também o é. sei que já tive facilidade para aprender muitas e muitas coisas, mas abandonei as pontas soltas. abandonei as tarefas conjuntas e as motivações. agora empreendo solitariamente algumas antitarefas até que, quem sabe um dia, seja jubilada.
mas não, também o drama eu já quase abandonei. não quero ser jubilada, quero ser reintegrada isso sim. mas mantendo a solitude. os amores raros, os calores quem sabe guardados para as harmonias mais tortas e interessantes. modos, perdi. quero encontrar novos. nesse frio concreto realizar o pretenso vaticínio ali embaixo. a força é o arquétipo do meu nascimento; está suspensa aos pensares e falares, está acumulada do lado esquerdo, até comprimindo os sentires, procuro fogo para derretê-la e quero que ela se esparrame. hoje as minhas tarefas solitárias são pouco túrgidas, são passivas e recalcadas. procura-se um incêndio.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

and the love that i feel cause it's the time of the year

hoje estava voltando da escola de música e levei um susto quando me dei conta do tom de azul do céu sem nuvens contrastando com a terra vermelha ali no descampadão atrás do balaio, entre a 201 e o setor de autarquias norte. um susto que fez meu coração bater mais forte, apaixonado que é por esta cidade ou o que ela poderia ser. é aquela época do ano. minha favorita, melhor do que aniversário, natal e ano novo tudo junto. cheguei em casa, abri a janela e deixei entrar pela primeira vez desde que vim morar na 216 aquele ar fininho e com as bordas cortantes, friazinhas, que é o condutor da minha disposição entre os meses de abril, maio e o começo de junho. passa tão rápido. mas essa é a época mais propícia a revirar os restos, produzir composto, compor. é agora meu tempo de sacodir esse tapete da sala, levar pra limpar. pegar minha guitarra e tocar com um sorriso na cabeça. não perder as manhãs. reservar a tela do computador para os momentos como este e aqueles outros inevitáveis. tudo o que você podia ser: colocar num porta-retrato e olhar ao acordar. acordar. colocar os pés no chão para, quando subir, aproveitar melhor a vista. visitar as palavras dos outros. captar frequências. endireitar a coluna e se sentir sólida, com bondade. sorrir sozinha. todos os dias. secretamente dedicar coisas. até para a coriza indefectível dei boas-vindas, pois não se pode ignorar as coisas favoritas, não se pode esquecer de festejar os afetos, muito menos quando o movimento é de retirar aquele tampão no olho bom, coloquei no lugar errado, a cola secou. se for para arrancar de uma vez, a hora é esta. são muitas as promessas, por que não fazê-las? são muitos os possíveis escritos, as possíveis audições, possíveis passeios, as fotografias latentes, o coração já azeitado, os músculos esperando o tremor, minha mente cheia de sorrisos e minha boca, acabo de perceber, fazendo aquele jeito de patinho que acontece quando durmo ou quando me perco em tarefas maquinárias e passagens secretas. estou embarcando. a passagem é livre.

sábado, 30 de janeiro de 2010

desapego, com gostinho de apego

estava lendo uma resenha de um livro que tenta defender o amor contra o esquecimento e/ou a pasteurização que a autora alega que ele vem sofrendo. fiquei um pouco cética tanto sobre o livro quanto o artigo, pois ambos não delimitam muito bem que amor é esse. parece o tempo todo que o real assunto ali é paixão. enfim, a autora do tal livro quer defender que, sem o amor, a arte sai prejudicada. a autora do artigo diz que a vida como arte sai prejudicada sem o amor, o que já é um pouco mais interessante. mas, honestamente, acho que as duas parecem estar apenas querendo intelectualmente justificar uma vontade de sentir aquele amor que era propagado na literatura de antes e que agora caiu em desuso. de fato, parece que hoje em dia só quem escreve histórias de amor (seja com final feliz ou não) são roteiristas de filme ou autores de best-sellers sem qualidades artísticas. mas o caso, para mim, é que amar e experimentar amor não se relacionam dessa maneira fulcral com a inventividade, com produção artística. inclusive, retomando o que disse há pouco, confesso que pouco me senti inspirada por amor de fato (até mesmo porque pouco experimentei isso). quando era mais nova, por causa de uma paixão "daquelas", passei muito tempo dentro do quarto escrevinhando coisinhas adolescentes porém com pretensões estéticas que eram seríssimas na época, ainda que agora me causem profunda vergonha. depois disso, durante alguns momentos em que acreditei estar apaixonada, também me pus a desenhar ou escrever, a tentar em várias frentes usar como combustível aquela turgidez característica de paixonites. e isso se tornou menos literal gradualmente. o que era produzido não queria ser e nem era uma representação de um sentimento ou de situações envolvendo a vítima da paixonite, mas sim algo tematicamente diferente que usou o momentum daquela vivência para se desenvolver. no fim das contas, e isso já tem um tempo, percebi que o que parecia paixonite não era nem bem isso, era apenas projeção momentânea. depois daquele episódio na adolescência e mais um ou outro pontual nos anos seguintes, acredito não ter realmente me apaixonado, embora tenha produzido quantidade razoável de textinhos, manifestações visuais várias e até sonoras que se desenrolaram sob a sombra de musos diversos. é muito claro hoje que não foi a paixão e nem a grandeza do pobre muso que me alimentaram criativamente, mas sim um mecanismo bastante peculiar: pegar as características propícias da situação e do alvo e retirar o máximo daquilo. fazer tudo isso como se fosse mesmo paixão, mas sabendo que não era, ou que poderia deixar de ser a qualquer momento. sim, pois, para sustentar essa condição, é perigoso conhecer muito o objeto da pseudopaixão, é preciso sempre manter alguma distância. quando entra algo como o amor, não é nem possível falar em distância; não se ama sem proximidade (em sentido amplo). então volto a afirmar, com um pouco de pesar, de fato, que nunca senti esse impulso criativo por causa de amor. e, dadas as devidas ressalvas causadas por adolescência aguda, nem por causa de paixão. a vontade de criar chega em mim por meio de concessões, de malear pontos interessantes numa dinâmica entre dois, de testemunho da criatividade alheia (ouvindo música, por exemplo) ou, mais crucialmente, por contemplação de coisas sem autoria (naturais) ou de autor anônimo (criadas, porém identificadas ao acaso).
é claro que essa minha declaração não ataca o que preocupa a autora do livro, pois ela está preocupada com a grande arte, e deixei de ter sérias pretensões a ela (ou esperanças de alcançá-la); mas acho que meu alvo foi o problema da autora do artigo, que é preservar a vida como obra de arte. ao menos para mim, sentir esse impulso criativo, essa vontade deliberada de inventar (e às vezes a invenção não sai da cabeça, mas ainda assim está se manifestando para mim e de maneira frequentemente incomunicável) é parte imprescindível de considerar minha vida interessante o suficiente para que eu não queira sair no meio da história. mesmo com todos os percalços, alguns até bastante tinhosos. na obra de arte pessoal que desenvolvo, o que é mais importante do que me preocupar com amores e paixões é viver deliberadamente, graciosamente, inventivamente e intrepidamente (emprestando da autora número 1) seja lá qual for a fonte de disposição para isso.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

sináptica

hoje estou assim, quase, quase túrgida, como costumava dizer. não foi o suficiente fazer meu diário depoimento em outras paragens, por isso este regresso.
ainda não sei se mantenho esta arena das arengas ou se migro completamente para lá. mas não interessa.
o que esteve retumbando o dia todo foi o pensamento de que sempre busco o mais real do que o real. não é o caso de se iludir exatamente: não é um panteão ao qual professo fé eterna e que se abala com deslocamentos morais. não é esse tipo de escapismo. aliás, embora essa palavra seja bonita, detesto-a. escapar do que, problemas? agruras de trânsito, vaidades, dinheiros, merecimentos, prazos e dores? talvez. em parte. mas esse pacote sinistro não é a definição do real (se liga). não se busca deslumbramento para fugir somente, como se essa fosse a única razão pela qual se imagina qualquer coisa. até porque tenho a desconfiança de que o mais do que real não é só uma questão de imaginação. é quase um desenvolvimento de outros sentidos. ou somente tomada de conhecimento deles, momento a momento. o sentido da força: calibra pesos e velocidades. o sentido da permeabilidade: capaz de ser impresso por refrescâncias e outras temperaturas, ligado à maleabilidade. o sentido circadiano: registrando ritmos e pulsos incessantemente.
o que é, então, essa inconstância aparente, insaciabilidade, essa vontade tão voraz que receio até que irrite aos que a testemunham? sintomas de uma existência mais do que real. de constância na estimulação de sentidos. de constância, sim, nos impulsos exploratórios. de busca também de pontos de apoio mais do que reais, pontos de apoio não exatamente fixos mas que se movem de acordo. busca de cadência. uma tarefa solitária, em parte. mas inexorável.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

voltou

não acho bobagem pensar que as coisas pedem um retorno. o fim da música é mais tranquilo quando volta para a tônica. pode ser bonito de outro jeito também. mas existe mesmo essa vontade de resolução pelo resgate.
a memória; nunca mais a subestimo. acho que mais de um ano se foi vivendo no presente. estou saboreando este momento de distorcer a conotação sempre positiva dessa expressão. viver no presente é a mentira mais idiota de que consigo me lembrar agora. parece tão infantil. sem a memória, como desfrutar de qualquer coisa? como sentir que se gosta de algo sem trazer um aprendizado dos sentidos?
recapitular e poder sorrir sozinha de conclusões e fazer ligações entre aquilo lá longe e essa coisa agora que poderia passar despercebida não fosse a memória.
engraçado, nunca gostei daquele quadro do dali, persistência da memória ou do tempo, ou o que o valha, mas bem, acho que tivemos um momento parecido.
sem ela, como eu iria olhar por esta janela aqui ao meu lado/minha frente e ter tanta riqueza de sensações e tanta profusão de palavras se acotovelando? não interessa agora se são bem encadeadas. nem escolhidas. sempre posso voltar e corrigir, se achar que devo. vou lembrar dos critérios, a partir deles talvez escolher novos. poderia descartar esta janela, desmerecer coisas e pessoas, a começar por mim. e é assim que as coisas se estavam encaminhando, de maneira sórdida e silenciosa ao mundo, incrivelmente alta à cabeça sempre quente, estragando travesseiros uma noite depois da outra, sem olhar lá pra fora, desperdiçando.
mas tem muito tempo ainda, e ele persiste. muito o que fazer.
e cada vez menos vergonhas. no plural, muitas e diferentes que eram.
depois de uma pausa, pensei agora que – de fato – vários posts aqui no blog de uma maneira ou de outra se relacionam à memória. e acredito (não fui verificar) que são positivos. aliás, francamente, essa é um característica que aprecio: escrever e se inspirar nos momentos bons. não necessariamente felizes, dá até preguiça de pensar o que é isso de fato, por isso digo "bons"; os momentos de descoberta (ou nada mais que resgate, ave sócrates), de retorno mesmo.
saturno, saturno. vou fingir que você é a lua só um pouquinho. pra poder olhar contemplando, um pouco teatral, algo como uma cerimônia, um ritual ingênuo, como os de adolescente.
mas no início, antes de largar este post, queria escrever um sobre a palavra 'yield'... acho que deu certo.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

astronomy domine... anima mea

retorno de saturno. aparentemente, estou nele.
não sei bem o que acho de astrologia, mas "retorno de saturno" soa. combina com "retumbante". soturno. estorno. saturo. estouro. noturno. ressalto. costuro.
então se for verdade que umas constelações me estão pirando os nervos, podem ser de estrelas ou palavras em forma de som.
estive hoje comentando: o que tem gosto bom não tem nome feio: camomila, erva-doce, sálvia, alecrim... mas o que tem gosto ruim, sim: boldo, carqueja, mastruz, cáscara...
então não se elimina o acaso. acredito muito na sinestesia. mais do que nos astros.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

a volta dos que não foram

mangas arregaçadas, ponho-me depois de tanto tempo novamente a dar palpites. pensei nisso o dia todo, embora as palavras futuras não tenham me dado o ar de sua graça, aquela prévia que antes sempre tinha em pedaços quando saía nas minhas caminhadas. mas a sensação de que poderia tentar de novo. quem me conhece, já captou: é aquela época do ano. o inverninho de brasília, antes de secar até o osso.

neste dia tudo começou com a primeira caminhada depois da mudança de endereço, aqui pela vizinhança. me segurando agora para não adjetivar o conhecer passo a passo dessa nova empreitada. uma trajetória já tão familiar de carro, mas tão estranha e sedutora pé ante pé: nova para os sentidos de crivo fino. (foram poucos adjetivos). já são nove meses: só contei agora, de introversão emparedada (de gesso, infelizmente), a vida na torre que, efeitos deletérios descontados, dá justo contraste para o descortinar inevitavelmente junino.

por isso tudo me perdoem qualquer afetação, quaisquer palavras cheias de si, ou uns ares de empoamento. é só para garantir a diversão (minha). saudade.

ficha técnica:
caminhada do dia: 8h, pela QI/QL 1 do lago norte.
ouvindo durante: teaser and the firecat, cat stevens
ouvindo ao escrever: gnossiennes 1, 2 e 3, erik satie (roland pöntinen)
ouvindo agora: gymnopèdies 1, idem acima
esqueci de falar sobre: voltar a ouvir música. sim, voltar a ouvir música. ah, e sobre a luz.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

tableau!

imagino se o manuel bandeira estava a falar de lógica quando pôs esse nome num poeminha (sim, no diminutivo. reclamações: dirija-se ao balcão).
nah. ele não era assim um joão cabral.
bem, eu adoro fazer tableaux, são excelente sucedâneos a palavras cruzadas em viagens. estou em campinas, viagem de ensejo conjugal-afetivo, num quarto de hotel, furiosamente provando teoremas mais facilmente prováveis do que a fatalidade da solidão para mulheres acima de 40 anos, tentando pensar em como tornar este blog algo mais respeitável.
já não faço mais semi-literatura, não porque "mãe, não consigo!", mas porque não quero.
mas as coisas que gostaria de contar sobre meu dia ainda não ocorreram; as coisas que gostaria de explicar, ainda não as entendo bem o suficiente; o estilo que gostaria de usar nesse novo rumo de escrita, ainda não o desenvolvi e, por fim, ainda não acabou-se o ano: e como isso faz diferença.
nunca antes estive tão ocupada, nunca fui tão pouco gazeteira, embora ainda o seja em intensidade preocupante.
e que isso melhore. e que este blog tenha menos e menos posts a não ser que sejam do tipo semi-tacitamente descrito acima. nesse caso, que tenha vários.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

nota de falecimento canino

atena foi pro céu dos cachorritos domingo último, tolhida pelo mal que acomete todo inocente boxer (que não é atropelado ao sair pra farra): câncer. no entanto, ela esteve serelepe até os últimos dias, latindo bastante pro mocinho da caesb e comendo pão com manteiga. disse o veterinário que ela possivelmente nem sentiu dor, apenas seu coraçãozinho cansou do agito. parece que até levantou e deu uns passinhos antes de se retirar, com certeza com seu rebolado característico. rip 'palas' atena.

sábado, 30 de agosto de 2008

sono

quase todo tempo livre que me sobra agora é tomado por um sono inexorável. passei aqui apenas para dar sinal de vida a quem quer que porventura me visite. deixo a dica de conferir a lista dos meus favoritos no stumble upon (lista e links ao lado), tem artigos interessantes e páginas curiosas.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

rabugices de 6 da manhã

Today's fortune: The heart is wiser than the intellect

talvez esse tipo de frase não só me dê calafrios como seja um dos problemas que enxergo no modo de falar analógico. não cabe ao coração ser sábio, afinal, "sábio" costuma ser característica atribuída a pessoas completas e com aparelho cognitivo, memória, capacidade discursiva etc. mas esse não é nem o primeiro porém que faz travar esta que aqui arenga. o que se quer dizer por "coração"? as emoções, suponho, ou algo que o valha. pois bem, é engraçado, mas usar o coração para unificar as emoções é algo que não puramente satisfaz uma necessidade de simplificar o discurso mas também acaba por unificar o que, creio, são coisas diversíssimas e numerosíssimas. as emoções, ainda (ou o que as valha). não acho que seja possível fazer essa unificação sem problemas. não sei bem quais são os problemas (nem mal). mas acho suspeito. me cheira como mais um dos buracos que a linguagem analógica tenta tapar, ou fazer parecer preenchidos por uma certa perspectiva, um jogo de espelhos e lentes... nesse ponto, é claro, me vejo mais uma vez usando o próprio recurso que é objeto das minhas rabugices. quero entender melhor diferenças entre metáfora, analogia, alegoria, ironia, metonímia etc. tenho alguns pontos de partida. ah, importante: aqui no blog NÃO estou fazendo filosofia nem teorizando sobre a linguagem, APENAS descarregando pífias representações, às vezes mais, às vezes menos, cifradas de emoções difíceis de se classificar e que não concordam com a sorte do orkut. esta rabugice não é nem um pouco mais sábia do que o intelecto. aliás, acho que tampouco faz sentido dizer que o intelecto pode ser sábio, por motivos similares aos opacamente esboçados ali em cima. enfim, são 6h20 da manhã e preciso terminar um trabalho.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

interlúdio

dias de estudo e trabalho intenso. produção com palavras não literária, portanto.

de estético, que tenho a oferecer no momento, talvez minhas novas fotos no orkut.

ademais, deixo o link aqui para um álbum um pouco estranho, mas de que gostei muito. é de um conjunto chamado white noise, do final dos anos 60, inglês. early electronic.

quarta-feira, 26 de março de 2008

desafinidades

é engraçado se esquecer de que certas coisas com que muito se lida não são cotidianas para a maioria das pessoas (pois elas vivem dentro da própria cabeça e não da de outrem). e, dessas coisas, fala-se, gesticula-se animadamente, tudo com muita naturalidade, até que depois, na solidão, vem a ressaca verbal. hehe. mas não é dramático, é engraçado.

terça-feira, 4 de março de 2008

oráculos do dia

57. sun/a suavidade (o penetrante, vento)

representa a filha mais velha e simboliza vento ou madeira. tem como atributo a suavidade, que é penetrante como o vento ou como a madeira em suas raízes. o princípio da escuridão, em si mesmo estático e imóvel, é dissolvido pelo penetrante princípio luminoso ao qual, com suavidade, se subordina. a qualidade penetrante do vento depende de sua constância. o tempo é seu instrumento. a ação repentina apenas assusta e provoca repulsa.

42. i/aumento

este período é semelhante a um casamento entre o céu e a terra, quando a terra participa da força criadora do céu, dando forma e concretude aos seres vivos. quando um homem recebe uma grande ajuda vinda do alto, deverá fazer uso desse aumento de força para realizar uma obra igualmente grande. em outras circunstâncias ele não teria nem a força necessária para assumir as responsabilidades implicadas num tal projeto.

[evolução do oráculo]


20. kuan/contemplação (a vista)

por um lado, contemplar. por outro, ser contemplado. hexagrama relacionado com o oitavo mês (setembro/outubro). o ritual de sacrifício na china começava com uma ablução e uma libação, com que se invocava a divindade. em seguida se oferecia o sacrifício. o lapso de tempo entre as duas cerimônias é o mais sagrado, o momento de suprema concentração interior. da contemplação emana um poder espiritual oculto que influencia e domina os homens, sem que eles estejam conscientes de que isso ocorre.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

a terra azul da cor de seu vestido

ontem, voltando pra casa, vi lá no horizonte provavelmente o que vejo com frequência mas cometo não notar. um 'bosque' reflorestado, daqueles de pinheiros, homogêneos e escuros. quando eu era criança, chamava isso de beleléu. os primos viajávamos com os nicolaus e íamos no caminho nomeando algumas coisas e paisagens. as florestas de pinheiros são os beleléus, mas ainda havia outro tipo, o cafundéu, que era composto por outro tipo de árvore. não sei qual, mas também dessas que repovoam espaços por aí.
fiquei olhando pro beleléu, aquela coisa longe e compacta meio verde-azulada, escutando clube da esquina, pensando nas coisas melhores do mundo. mas dizer isso, pensando bem, é uma metonímia, ou pode ser. parece que é substituir a mente por mundo. enfim, o beleléu é uma dessas coisas melhores da minha cabeça-mundo, daquelas que não sei bem como transplantar pra outras cabeças. e não pude escrever, do beleléu, metaforicamente como costumo fazer aqui, em forma de cifras, talvez porque quisesse ser prosaica como essa lembrança. mas ainda tem mais. na hora, pensei em estar no alto, olhar pro longe, escutar música de altos e longes e ao mesmo tempo de chão e proximidade. que era bem aquele olhar pro beleléu. e quando era criança, "ir pro beleléu" queria dizer morrer, ou sumir. eu tinha muito medo da morte, sonhava até com ela, tinha insônia. mas o beleléu era, quando passava pelo nosso carro na estrada, uma figura sofisticada na mente-mundo-criança, uma morte bastante mais metafísica. tinha fascinação por me perder do espaço comum, transitar pelos submundos mentais que se afastavam proporcionalmente ao deslocamento do carro ou das horas da madrugada, das páginas dos meus livros de criança, todos os meus movimentos experimentais primeiros.
e agora? parece que todas essas impressões ficaram, duvidosas, numa espécie de sudário dessa mente que só meta-morre, que se vê, volta e meia, às voltas e retornos, saídas e bandeiras com gosto de sol azul escuro.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

ela, quarto crescente

p1: o que se passa com a mulher que já não cabe em si?

– intercala silêncios e desfiles de palavras.

pois que, além disso, acredita em comedir: deitar, palmo a palmo, consigo e o não-seu, aquilo que diz. quando desfila palavras, como referido acima, no entanto, encontra repreensão pela falta de mesura, e percebe que o movimento é de antiprática da estrutura do mundo, recusar o afeto das palavras, um descuido.

assim, interpolando desmedidas, frequentemente se esquece de que o fato de já não caber em si é extremo bem. não é ele, o fato, que determina as suas culpabilidades idiossincráticas, mas sim o jogo de vícios em que se encontra.

p2: o que deve responder a mulher?

– que não é importante saber as regras senão como criá-las, e assim, com sua propriedade propínqua, proceder a tornar o tal jogo uma constante oscilação entre ápices: maleabilidade e dureza. daí, saber usar substratos, essências, tanto quanto o choque de superfícies.

domingo, 14 de outubro de 2007

ab anabasis

tire a franja dos olhos: estou perdida. numa visita inconseqüente ao meu próprio abandonado linguado, vi meu apreço pela juventude refletido pixel por pixel, e só vi pois os olhos encontraram a si mesmos. estou perdidamente apaixonada por mim, com todo o terror de que acreditei estar livre. talvez seja melhor, porta aberta, dizer logo "sou". fabrico ponto por ponto. e, assim, no palco mais iluminado, agora com as sangüíneas a me emoldurar, caí de joelhos. este momento, prostrado, catabático, diante de coisas que julgava tão triviais que me traziam sismos. assintomaticamente. que mãos serão essas alcançáveis? a procurar, calos tocarão calos? sulcos aumentarão sulcos? o que tocar, agora?

terça-feira, 25 de setembro de 2007

buoyancy

naquelas revisões de perfil do orkut motivadas por circunstâncias que uma dama não comenta, resolvi colocar alguma coisa bem-humorada porém com uma dica da realidade no campo "ideal match". pois bem. que fiz?
– fui à wikipedia.

já havia uma vez navegado pelos verbetes relacionados a amor, há uma série deles. uns bons minutos ou até horas se pode passar só de tópico em tópico; alguns deles eram inimagináveis para mim: limerence, office romance, romantic friendship, além dos já investigados platonic love, spiritual marriage e courtly love.

onde encontrei o que procurava para preencher a lacuna orkútica?
bem, como sempre, na auto-referência, ou melhor, num movimento mesmo especular que se volta não à minha imagem mas a este palavrar específico assomado plurabelístico e àquilo que ele conta. sim, neste post.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

as sortes do dia

passolavrar e reconhecer pés (longos, curtos)
sibilante ergo, suma constante (velar)

direcionadas coníferas em globo e apêndice (destro)
horizonte imaginativo onde mora o que se furta (de soslaio)

vale-se do sal, vinte e três (e onze)
de lupino salto, palatável rastro (prévia).

terça-feira, 31 de julho de 2007

agosto is born

trocadilho a gosto – sem a esbórnia – para marcar o mês anunciado por um wishful thinking temático: leveza. sim, ainda uma vez.
hoje, confesso, poucas músicas da minha playlist usual do iTunes eram a escolha certeira.
quis algo leve e delicado, que não abafasse o som retumbante da mudança de estações.
talvez um pouco como JC e santa catarina e seus estigmas, as estações são mais do que quatro, talvez sejam como as de G.H., ligeiramente. mas, honestamente, acho que estão mais para aquelas onde se pega o próximo trem.
e esta estação abriga a memória de todas as passadas assim como a potência das que virão. nela, há mudança das condições atmosféricas; aliás, não é que não ocorram também em outros lugares, mas aqui é onde ficam os termômetros, barômetros, relógios e até balanças onde se pesa a bagagem.
agora, um instante: é assim que funciona, então, um momento marcante? um ponto de mutação? isso é uma analogia?
não é mais – foi – e digo: o melhor de tudo está onde não posso analogizar, talvez se tentasse muito: no vento que o trem desloca. Mas, nem aí, nem assim pode estar em algum lugar ou alguma palavra a constante sinestésica aplicada a este nascimento de agosto.
para onde se vai então? a questão não é para onde, mas com o que e com quem. e outra: que se deve ir. já sabia? então não larga.