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sexta-feira, 18 de junho de 2010

as minhas tarefas solitárias

eu sou solitária. e não da espécie parasita. de uma linhagem outra, da ordem dos acordados, filo sóficos de araque. já entendi tanta coisa, mas nunca entendi bem minha inteligência. sei que sou egocêntrica e tem gente burra que também o é. sei que já tive facilidade para aprender muitas e muitas coisas, mas abandonei as pontas soltas. abandonei as tarefas conjuntas e as motivações. agora empreendo solitariamente algumas antitarefas até que, quem sabe um dia, seja jubilada.
mas não, também o drama eu já quase abandonei. não quero ser jubilada, quero ser reintegrada isso sim. mas mantendo a solitude. os amores raros, os calores quem sabe guardados para as harmonias mais tortas e interessantes. modos, perdi. quero encontrar novos. nesse frio concreto realizar o pretenso vaticínio ali embaixo. a força é o arquétipo do meu nascimento; está suspensa aos pensares e falares, está acumulada do lado esquerdo, até comprimindo os sentires, procuro fogo para derretê-la e quero que ela se esparrame. hoje as minhas tarefas solitárias são pouco túrgidas, são passivas e recalcadas. procura-se um incêndio.

sábado, 30 de janeiro de 2010

desapego, com gostinho de apego

estava lendo uma resenha de um livro que tenta defender o amor contra o esquecimento e/ou a pasteurização que a autora alega que ele vem sofrendo. fiquei um pouco cética tanto sobre o livro quanto o artigo, pois ambos não delimitam muito bem que amor é esse. parece o tempo todo que o real assunto ali é paixão. enfim, a autora do tal livro quer defender que, sem o amor, a arte sai prejudicada. a autora do artigo diz que a vida como arte sai prejudicada sem o amor, o que já é um pouco mais interessante. mas, honestamente, acho que as duas parecem estar apenas querendo intelectualmente justificar uma vontade de sentir aquele amor que era propagado na literatura de antes e que agora caiu em desuso. de fato, parece que hoje em dia só quem escreve histórias de amor (seja com final feliz ou não) são roteiristas de filme ou autores de best-sellers sem qualidades artísticas. mas o caso, para mim, é que amar e experimentar amor não se relacionam dessa maneira fulcral com a inventividade, com produção artística. inclusive, retomando o que disse há pouco, confesso que pouco me senti inspirada por amor de fato (até mesmo porque pouco experimentei isso). quando era mais nova, por causa de uma paixão "daquelas", passei muito tempo dentro do quarto escrevinhando coisinhas adolescentes porém com pretensões estéticas que eram seríssimas na época, ainda que agora me causem profunda vergonha. depois disso, durante alguns momentos em que acreditei estar apaixonada, também me pus a desenhar ou escrever, a tentar em várias frentes usar como combustível aquela turgidez característica de paixonites. e isso se tornou menos literal gradualmente. o que era produzido não queria ser e nem era uma representação de um sentimento ou de situações envolvendo a vítima da paixonite, mas sim algo tematicamente diferente que usou o momentum daquela vivência para se desenvolver. no fim das contas, e isso já tem um tempo, percebi que o que parecia paixonite não era nem bem isso, era apenas projeção momentânea. depois daquele episódio na adolescência e mais um ou outro pontual nos anos seguintes, acredito não ter realmente me apaixonado, embora tenha produzido quantidade razoável de textinhos, manifestações visuais várias e até sonoras que se desenrolaram sob a sombra de musos diversos. é muito claro hoje que não foi a paixão e nem a grandeza do pobre muso que me alimentaram criativamente, mas sim um mecanismo bastante peculiar: pegar as características propícias da situação e do alvo e retirar o máximo daquilo. fazer tudo isso como se fosse mesmo paixão, mas sabendo que não era, ou que poderia deixar de ser a qualquer momento. sim, pois, para sustentar essa condição, é perigoso conhecer muito o objeto da pseudopaixão, é preciso sempre manter alguma distância. quando entra algo como o amor, não é nem possível falar em distância; não se ama sem proximidade (em sentido amplo). então volto a afirmar, com um pouco de pesar, de fato, que nunca senti esse impulso criativo por causa de amor. e, dadas as devidas ressalvas causadas por adolescência aguda, nem por causa de paixão. a vontade de criar chega em mim por meio de concessões, de malear pontos interessantes numa dinâmica entre dois, de testemunho da criatividade alheia (ouvindo música, por exemplo) ou, mais crucialmente, por contemplação de coisas sem autoria (naturais) ou de autor anônimo (criadas, porém identificadas ao acaso).
é claro que essa minha declaração não ataca o que preocupa a autora do livro, pois ela está preocupada com a grande arte, e deixei de ter sérias pretensões a ela (ou esperanças de alcançá-la); mas acho que meu alvo foi o problema da autora do artigo, que é preservar a vida como obra de arte. ao menos para mim, sentir esse impulso criativo, essa vontade deliberada de inventar (e às vezes a invenção não sai da cabeça, mas ainda assim está se manifestando para mim e de maneira frequentemente incomunicável) é parte imprescindível de considerar minha vida interessante o suficiente para que eu não queira sair no meio da história. mesmo com todos os percalços, alguns até bastante tinhosos. na obra de arte pessoal que desenvolvo, o que é mais importante do que me preocupar com amores e paixões é viver deliberadamente, graciosamente, inventivamente e intrepidamente (emprestando da autora número 1) seja lá qual for a fonte de disposição para isso.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

ranting & raving

às vezes gosto de pensar que não sinto raiva facilmente. mas isso é auto-engano. exemplo: basta que alguém seja condescendente comigo ou outra mulher por causa da aparência ou de estereótipos para que me fervam os nervos.
não é engraçado: já duas vezes em matérias do mestrado os professores me olharam confusos no primeiro dia de aula e vieram perguntar se eu era aluna do mestrado em filosofia (leia-se: você está na sala certa?)... posso estar exagerando, mas uma pulga atrás da orelha direita me convenceu maliciosamente de que os professores em questão não só ficaram desconfiados pois suas classes eram masculinas demais para ter uma aluna como também pelo fato de que não sigo o estereótipo da mulher intelectual.
e como ele se caracteriza? bom, em linhas gerais, dá pra perceber que há um acordo tácito segundo o qual mulheres inteligentes não se preocupam com a aparência. daí deriva o resto: nada de maquiagem, nada de usar lentes (só óculos são dignos), nada de salto, nada de roupas e bolsas caras. para maiores angústias quanto à baixa cotação da moda no mundo intelectual, clique aqui.
o caso é que possivelmente fico muito incomodada também por já ter tido esse preconceito, em alguma medida. que vergonha.

por outro lado, tudo isso, raiva ou não, provocou um rearranjo na minha auto-imagem. o que, noves fora, significa mais ou menos o seguinte: faço mestrado em filô do mesmo jeito que o zé pratica canoagem ou a mariazinha processa dados: é um trabalho. tem técnica. tenho gosto por ele, mas não quero que me defina sozinho. tem outros aspectos da vida que considero e sinto que são tão relevantes quanto esse: afeto pela minha família e amigos, senso estético, paladar, senso de humor, impulsos, razões, estratégias... enfim. deu pra ter uma idéia, acho.

e o mesmo vale para outras pessoas.

e assim admiti que tenho um pouco de preguiça de intelectualidade segundo o grande livro dos estereótipos. e assim me desobriguei totalmente de cultivar certas coisas que não me instigam tanto assim mas que são consideradas obrigatórias pelos corredores da unb. e agora só preciso me convencer 100% de que estou certa, pois toda essa estória está me atrapalhando os estudos.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

saudade daquele radical ermo contemplativo da infância

que criança séria que eu era. mas ainda bem. por isso, olhava com força.
e assim até hoje guardo uns vislumbres de como era minha cidade naquela época. minha brasília tão aberta que causaria ansiedade nos mais citadinos.

sempre lamento pelos cantos toda mudança que o plano piloto sofreu. posso enumerar algumas pragas:

* os jardins à la teletubbies que proliferam em canteiros, balões e superquadras;
* as infames lajotas que deixam tudo com cara de banheiro do avesso e, como não bastasse, caem na cabeça das pessoas que ainda se atrevem a andar a pé pelas quadras;
* os prédios muito grandes na zona central, bloquando a vista dos monumentos do eixo que, afinal, chama-se monumental;
* as cercas em todo lugar, prisões disfarçadas: em volta de pilotis (crime! safadeza!) impedindo a livre circulação tão almejada por lucio costa, em volta de parquinhos infantis, de árvores etc;
* a proibição de uso do pilotis para qualquer coisa que não seja caminhar do estacionamento à portaria. crianças deveriam brincar nele, afinal;
* tamanhos inaceitáveis de letreiros, além do mau-gosto;
* falta de manutenção na torre e no parque da cidade, também em prédios sob responsabilidade do governo (federal ou distrital): os da unb, da escola de música, das escolas classe e parque, espaço cultural da 508 e por aí vai;
* quaisquer reformas nos prédios que tirem o caráter arquitetônico inicial. por que não apenas lixar e encerar o concreto, cuidar das pastilhas...? filisteus!

felizmente, para minha sanidade e conforto, a cidade e minha memória em conjunto conseguem produzir sensações que remetem ao passado saudoso. não são exclusivamente visuais, mas momentos sinestésicos, varrendo a abrangência de sentidos que um dia vivenciaram com incrível consciência as cores, relances, climas, razões, texturas e caminhos de brasília.

os gatilhos variam; tenho a impressão de que frequentemente são nuances de luz sobre prédios e árvores, sobre o lago. ou este céu inevitável, indefectível e maravilhoso. o concreto, algum vestígio de paisagismo setentista, um pouco de athos, marcílio, lelé, lucio. pau-ferro no eixão sul e os comparsas ipês e sibipirunas. algumas espatódias e callistemon, embora exóticas. pequenos trechos de curvas e jardins e até pedaços de asfalto sem novos desvios. praça portugal. praça do conjunto, um pouco. dependendo da hora do dia.

se no futuro esse meu contentamento com a miséria de lembranças que tenho acabar, ou se todo vestígio da minha brasília sumir, vou-me embora daqui, só não sei pra onde.