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domingo, 27 de abril de 2008

in media res

perguntou, mãos repousadas nos meus ombros: que sentido você dá aos seus sentidos, se algum?

ao que defendi assim: me comove hospedá-los. mais um subterfúgio?

assentiu, e as mãos deslizaram ao pescoço.

pensei em ter, mais uma vez, falado indiretamente, tentado intimar. dentro da boca, quase na garganta, a nitidez do medo, a familiar antecipação. ainda coube, num segundo, a consideração de que talvez por sempre ter contemplado meus limites, tenha-se afigurado o entrever constante do que não cabe. enfim, disse: sustentá-los pelo verbo, dar-lhes estrutura. esse o sentido. a verbalidade latente, mesmo não engendrada. o que não é dito, é dito. o resto, da natureza de que não se pode nem mesmo não dizer, ou dizer.

mãos do pescoço aos joelhos, e de volta atrás da própria cabeça. me lançou olhos rapidamente, no que logo completou: mas você ainda contorna o contorno, ao achar que deve falar sobre o que move aquilo que te move. não é seu. o que é, enfim, seu?

cada pergunta, uma imagem do seguinte campo: muro, barragem, parede. me confundiram com santa, me pediram graças. ou me reconheceram no embaraço em que faço casa desde sempre. ou me reconheci. por que não poderia continuar respondendo com indícios? não era um caso psicológico. assim não resolveria.

ele sustentava o olhar, esperando. sua expressão solidamente decidida. como se quisesse (secretamente) me ajudar, doar precisão. com gentileza, pressionei seus ombros para que recostasse e, envolvendo-o, enunciei: você está sempre certo.

quinta-feira, 27 de março de 2008

uma combinação.

odisseu. para onde evoluímos?

tirésias. para ver o futuro, deve-se olhar para o passado. ainda que sejam idos em parte imaginários. o próprio presente e o futuro falam, também, por meio de parábolas mais ou menos conectadas e empreendidas por aqueles que lhos dão voz. sintetizam-se todos numa assíntota (em sua classe, tendem ao infinito) formada por pontos (encruzilhadas) determinados por variáveis padrões de iteração produzidos na imaginação. nas mentes que apontam, colhem, contrapõem referências, pressupõem materialidade. o futuro, de sua perspectiva projetada, é sempre necessário.

odisseu.
vejo as ondas, no mar, como trilhos. descrevem arcos que sustentam os caminhos por onde posso navegar. não posso seguir cada um com os olhos ao mesmo tempo, nem guiar a embarcação por todos. tenho dormido, tirésias, com o olho direito aberto. a cada clarão, posso vislumbrar partes de jornadas semelhantes, conduzidas por vagas análogas.

tirésias. as analogias, odisseu, disse-me bem, fundam-se em comum substrato, ao mesmo tempo em que fundem-se em outras vagas, trilhos, por sua vez. não são referências senão sentidos, não são juízos senão poética.

odisseu. assim que, por vezes, vejo adiante da névoa, em alta definição, algo de tão pristino que escuto a própria flauta de pã. me estremeço, minha anatomia toda solta, lançada no ataque mais belo ao próprio cerne. ali está a embarcação feita de superfícies e submundos, em seu equilíbrio de luz e sombra, radiante cinza.

tirésias. e assim há de ser, diz-me a deusa.

odisseu. não obstante, devo dizer, se, não entregue a morfeu, ponho-me em posição de escrutínio, seguro o leme com toda vitalidade, coisa bem diversa se me assoma. um naufrágio, chegado à costa, já abandonado pelos sobreviventes. talvez tenha-se chocado contra mais potente encouraçado. me enleva a visão, no entanto, tirésias. ali onde outrora se procurava a terra prometida (a própria casa), meio à desmaterialização em processo, vibravam ninhos de pássaros cantadores, musgo de um verde somente sonhado, líquens de todas as cores e poças de água do mar refletindo o céu, prateando o cenário.

tirésias. e assim há de ser, diz-me a deusa.

odisseu. valham-me, então, os deuses, por haver aprendido a apreciar a música de pã, e não me afligir com contrariedades senão com contradições. vejo, em meus próprios augúrios, belas noções. não temo, tirésias, tendo fitado o infinito nos entremeios do mar imenso, os deuses que, de tão distantes, podem apenas valer-me, porém não me tocam a pele. fiz-me filho de narrativas que eu mesmo empreendi, companheiro de que senão a beleza que aceito e traduzo, sol após sol, em revoluções ciclicamente apresentadas, em aparições gloriosamente pequenas, presenças robustas.

coro. somos, agora, necessariamente, tanto odisseu quanto tirésias, um nos cabelos do outro, nos espaços e além. estamos onde quebra a onda que vem desenrolando-se nos trilhos de ventos penetrantes, não soprados porém sussurrados. não somos nem tampouco odisseu ou tirésias, nem perguntas ou respostas, nem mesmo fomos sintetizados senão somos as próprias ondas e os trilhos em seu propósito de conduzir. as reverberações possíveis de uma combinação precisa e única de atrito e momentum. tendendo ao infinito.

quinta-feira, 6 de março de 2008

(agora)

sem a música constante, todas as coisas fotografadas gritam, todas menos a boca.

terça-feira, 4 de março de 2008

oráculos do dia

57. sun/a suavidade (o penetrante, vento)

representa a filha mais velha e simboliza vento ou madeira. tem como atributo a suavidade, que é penetrante como o vento ou como a madeira em suas raízes. o princípio da escuridão, em si mesmo estático e imóvel, é dissolvido pelo penetrante princípio luminoso ao qual, com suavidade, se subordina. a qualidade penetrante do vento depende de sua constância. o tempo é seu instrumento. a ação repentina apenas assusta e provoca repulsa.

42. i/aumento

este período é semelhante a um casamento entre o céu e a terra, quando a terra participa da força criadora do céu, dando forma e concretude aos seres vivos. quando um homem recebe uma grande ajuda vinda do alto, deverá fazer uso desse aumento de força para realizar uma obra igualmente grande. em outras circunstâncias ele não teria nem a força necessária para assumir as responsabilidades implicadas num tal projeto.

[evolução do oráculo]


20. kuan/contemplação (a vista)

por um lado, contemplar. por outro, ser contemplado. hexagrama relacionado com o oitavo mês (setembro/outubro). o ritual de sacrifício na china começava com uma ablução e uma libação, com que se invocava a divindade. em seguida se oferecia o sacrifício. o lapso de tempo entre as duas cerimônias é o mais sagrado, o momento de suprema concentração interior. da contemplação emana um poder espiritual oculto que influencia e domina os homens, sem que eles estejam conscientes de que isso ocorre.

domingo, 2 de março de 2008

definitely, consistency

engolir a tônica.

em tentativa, seguir o ar robusto cujo nome, dele, nada diz.

órbitas fora de esquadro:
– a turgescência, colecionadora de submundos;
– o indistinto, condensador de superfícies.

transfiguram-se-lhes arestas, afiar amostras de cinzenta honestidade. em contrapostos, descompassos e transgressos.

nos entremeios dos fios de cinza, mentes eqüimateriais. mensurável, continuamente, a constante eqüidistância; escolhida, ensaiada, registrada.

(tentative title)



de um modo

espaço tomado por azul adelgaçante

silencioso

militimbrado


(reprise)

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

pequena homenagem a vários músicos: alice coltrane, keith jarrett, erik satie, lyle mays, glenn gould

teclas em constante edição, usadas com propósitos que já se sabem débeis desde o início: entrar em mínima consonância ou até compasso tátil com outras longes e várias teclas. aproximar-se além do impalpável. fazer desenhos correrem por entre linhas e outros espaços correspondentes a padrões de interferência. se fazer interferir, isso sim, com as teclas. tentar promover a própria palavra tecla a possibilidade poética. não saber por onde ir para esconder os nomes eles próprios sem cifras.

enfim, desenrolar (ou confundir) as teclas em cordas
em caixas
em sopros
em correnteza
em passos
em estalos

até deixar assentar, até quase dormir.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

e as folhas que são verdes tornam-se em cinza

E assim é que equanimidade em que fingi acreditar foi quebrada. Facilmente, como se previa, cúmulos, ruídos. Por longos cordões de escuridão. Pelas áreas que cobrem. Longas, compridas. Extensões de terreno cercado, as entradas se movem e querem ser saídas e entradas e saídas e não se decidem.
Quem sabe o apelo do cinza seja também assim vasto. Espero que seja signo. De imposição. De firmar empunhadura. Talvez passagem encruzilhada.
Voltar para casa no pisar do chão, frio de armadura.
Mas não falha, nunca, não há meio, aquele núcleo dos movimentos circulares de modo que se torna sempre a fonte de iluminação.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

as sortes do dia

passolavrar e reconhecer pés (longos, curtos)
sibilante ergo, suma constante (velar)

direcionadas coníferas em globo e apêndice (destro)
horizonte imaginativo onde mora o que se furta (de soslaio)

vale-se do sal, vinte e três (e onze)
de lupino salto, palatável rastro (prévia).

terça-feira, 31 de julho de 2007

cais

aportar quando
te tornares o
embaraço, de perto
de dentro, importar.

todas as coisas
esquecidas, ontoterradas
emergência que levita
jogo de contas
atividade do ar.

chamado – lanço
escuto – lanças

escuto
o trem azul.

aceitar, tomar, escrever
nas tuas, nas minhas
mãos.